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Quinta-feira, Novembro 05, 2009 Desde ontem estou com desejo musical de ouvir Fera Ferida, que é uma das músicas que me fazem chorar instantaneamente. Várias coisas poderiam me fazer querer ouvir isso agora, mas o maior motivo é o mais sem graça: "Eu sei, as cicatrizes falam, mas as palavras calam o que eu não me esqueci". Claro que estar com um machucado chato no joelho tem a ver com isso. Desde que precisei parar de usar o curativo, porque a cola estava machucando mais que o machucado (e isso não é exagero, juro), que eu fico toda hora olhando e pensando "cacete, isso vai ficar uma cicatriz horrorosa". Claro que contribui pra neurose os comentários pouco simpáticos da chefa, que diz coisas tipo "você faz uma cagada dessas e quer que fique o quê? bonito?" e os comentários sem-noção da minha mãe, do tipo "mas será que não seria mesmo o caso de você ver um cirurgião plástico, pra ver se tem como melhorar um pouquinho essa desgraça?". Vou repetir a frase que eu disse quando surgiu a hipótese de me colocarem numa ambulância do SAMU, abrindo caminho no meio da multidão que estava em Ouro Preto pra ver o Lula: não é pra tanto. O corte foi fundo, foi comprido, no final de um corte largo vira dois fininhos (das duas arestas do vidro) e só não melhorou antes porque tive alguma espécie de reação alérgica louca a um dos remédios, que estava inflamando mais ainda, em vez de cicatrizar. Einstein que me perdoe, mas não é Deus quem joga dados, são os médicos e a indústria farmacêutica. Mas minha neurose amenizou com um comentário simpático que ouvi recentemente a respeito de cicatrizes e de como elas nos fazem ter lembranças de bons momentos. Tenho cicatrizes pequenas e fininhas no braço direito, causadas por arranhões da Duquesa, a primeira gata lá de casa, coisa de quando eu tinha sei lá, uns 8 ou 10 anos. Duquesa não está mais aqui com a gente, mas as boas lembranças de ter passado minha infância com uma gata siamesa louca permanecem. Um arranhão feio que Stitch me deu certa vez virou uma marquinha no meu pé esquerdo, enquanto que um corte idiota feito com gilete vai sempre me lembrar da primeira vez que viajei com um namorado, que carinhosamente cuidou do meu machucado a viagem inteira e não me deixou ficar chateada por ter me cortado feio na véspera do feriado. E agora terei uma cicatriz no joelho esquerdo, que vai sempre me lembrar dos longos e atarefados dias de trabalho pra Presidência da República e das curtas e divertidas noites que vinham depois. Pra essas cicatrizes não preciso de plástica. Não quero tirar, esconder. A plástica é necessária apenas pras outras cicatrizes, aquelas invisíveis, que ficam no coração. Fera Ferida - Roberto Carlos e Erasmos Carlos (mas a gravação de que mais gosto é a da Betânia) Acabei com tudo Escapei com vida Tive as roupas e os sonhos rasgados na minha saída Mas saí ferido Sufocando o meu gemido Fui o alvo perfeito Muitas vezes no peito atingido Animal arisco Domesticado esquece o risco Me deixei enganar e até me levar por você Eu sei quanta tristeza eu tive Mas mesmo assim se vive Morrendo aos poucos por amor Eu sei O coração perdoa Mas não esquece à toa O que eu não me esqueci Eu andei demais Não olhei pra trás Era solta em meus passos Bicho livre sem rumo sem laços Me senti sozinha Tropeçando em meu caminho À procura de abrigo Uma ajuda um lugar um amigo Animal ferido Por instinto decidido Os meus passos desfiz Tentativa infeliz de esquecer. Eu sei que flores existiram Mas que não resistiram à vendavais constantes Eu sei As cicatrizes falam Mas as palavras calam O que eu não me esqueci Não vou mudar Esse caso não tem solução Sou fera ferida No corpo na alma e no coração Eu sei que flores existiram Mas que não resistiram à vendavais constantes Eu sei As cicatrizes falam Mas as palavras calam O que eu não me esqueci Postado por Carol - 11:05 AM 2 comments |